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Kubitschek Pinheiro MaisPB
Fotos Caroline Bittencourt
Já está nas plataformas digitais o novo álbum “Mundo Paralelo”. do cantor e compositor Moreno Veloso. O disco – que contou com a participação do pai, Caetano Veloso, dos irmãos Zeca e Tom, e da tia Maria Bethânia na faixa “A donzela se casou” – tem produção musical do próprio Moreno.
A música que dá título ao trabalho e abre o álbum ‘Mundo Paralelo” é uma parceria dele com Tiganá Santana e Carlos Rennó. Uma bela homenagem aos 50 anos do bloco afro Ilê Aiyê. Tiganá declama no início no final da canção. O bloco faz parte da história de Moreno na música. A primeira vez que se ouviu a voz dele num disco foi entoando “Ilê Aiyê”, aos oito anos, na faixa “Um canto de afoxé para o bloco do Ilê”, do álbum “Cores, nomes”, de seu pai Caetano.
“Mundo Paralelo” é o terceiro álbum de estúdio de Moreno, o primeiro em uma década, desde “Coisa boa” (2014). Ele lançou “Ofertório ao vivo” com o pai e os irmãos Zeca e Tom, “Meu Recôncavo” (2019), também ao vivo, com o cantor, compositor e violonista Paulo Costta, em que interpretam as canções da tia Mabel Velloso; e “Clarice clarão” (2022), projeto com Beatriz Azevedo sobre a obra de Clarice Lispector, ocasião em entrevistamos os dois para MaisPB.
Músicas e músicos
Mundo Paralelo (Carlos Rennó, Tiganá Santana e Moreno Veloso)
Um Dois e Já (Quito Ribeiro e Moreno Veloso) – Nina Becker nos vocais e a percussão de Stephane Sanjuan
Presente de Natal (Quito Ribeiro e Moreno Veloso)
Bailando (Piero Piccioni – versão em espanhol de Bruno Di Lullo e Moreno Veloso)
Unga Dorme Nesse Frio (Moreno Veloso)
A Donzela Se Casou (Moreno Veloso) A base dessa canção conta com Moreno no prato-e-faca, seu irmão Tom no violão, com o também santamarense Paulo Mutti nas guitarras e Alberto Continentino no baixo, a percussão de Kainã do Jêje e o solo de sax tenor do Thiago Queiroz.
É de Hoje (Moreno Veloso e Luís Filipe de Lima)
Ninguém Viu (Quito Ribeiro e Moreno Veloso)
Deixe Estar (Antonio Cícero e Marina Lima)
Domenico Lancellotti, Ricardo Dias Gomes, Pedro Sá, Bartolo, Marcelo Costa, Alberto Continentino, Jaques Morelenbaum, Luís Filipe, Thiago da Serrinha, Felipe Fernandes e Kassin.
Em entrevista ao MaisPB, Moreno conta as histórias das canções Paralelas desse Mundo e solta a voz.
MaisPB – Vamos começar pela canção Mundo Paralelo que dá nome ao disco?
Moreno Veloso – Essa canção nasceu de um convite do compositor de São Paulo, Carlos Rennó, que nos enviou esses versos que ele tinha feito apaixonado pelo Ilê Aiyê e eu também sou, para que eu e Tiganá Santana marcássemos. Tiganá não é só filho da Bahia, eu também. Ele é filho de Arany Santana, uma das fundadoras do Ilê Aiyê e integra o bloco.
MaisPB – O bloco Ilê Aiyê faz parte da sua história?
Moreno Veloso – Sim, esse bloco Afro faz parte da minha vida e foi para ele a primeira música que eu fiz aos 8 anos, junto com meu pai, para homenagear o bloco. O Ilê Aiyê representa uma grande beleza da Bahia, do carnaval, mas também uma força política, uma presença forte da cultura e do povo negro da Bahia.
MaisPB – A segunda faixa “Um dois e Já” lembra um ditado que a gente ainda diz aqui na Paraíba – Um, dois, três e já – é nesse sentido?
Moreno Veloso – É nesse sentido sim, de que alguma coisa vai acontecer, vai começar. É uma parceria que eu fiz com Quito Ribeiro, ela tem uma forma básica, cíclica, quase como um mantra, que nasceu quando eu fiquei lá na cidade de Bamako no Mali, hospedado na casa de Amadou e Marian, casal de cegos, músicos, cantores malineses – essa música tem essa coisa forte da África, esse noroeste africano.
MaisPB – Quase todas as bases desse disco foram gravadas em Portugal…
Moreno Veloso – Seis das dez bases foram gravadas lá em Lisboa, na casa do Domenico (Lancellotti,) no estúdio que ele tinha no porão da casa e esse “Um, dois já” é uma delas.
MaisPB – Vamos falar da terceira faixa, “Presente de Natal”, que é sua e de Quito, que começou a ser feita em 2017?
Moreno Veloso – Foi um presente de Natal, aconteceu em 2017. Eu estava em casa doente e minha família toda saiu e eu fiquei sozinho. Peguei o violão, para me fazer companhia, fiz esse sambinha e mandei para o Quito. No ano seguinte, em 2018, ele me mandou de volta uma letra e não sabia que eu tinha feito no dia de Natal, não sabia de nada. Então, um ano depois ele mandou essa letra, que foi um presente de Natal.
MaisPB – Um presente de natal, mesmo. A canção é linda…
Moreno Veloso – Justamente, foi feita no Natal e terminada no Natal. É que às vezes a gente faz as coisas de presente para outras pessoas e muito raramente a gente ganha uma música de presente de nossos parceiros – essa eu ganhei
MaisPB – A canção “Bailando”, é uma versão italiana?
Moreno Veloso – Ela é uma melodia italiana, você está certo. É do compositor italiano Piero Piccioni, que ele fez para a trilha sonora do filme Colpo Rovente (tiro de rasteira em italiano) dos anos 70. A gente estava ouvindo essa trilha, e tinha essa melodia linda, então eu e Bruno Di Lullo fizemos.
MaisPB – A letra dessa versão é em espanhol, né?
Moreno Veloso – Espanhol porque o Bruno é de família chilena e é uma língua próxima dele. Foi no Dia dos Pais e como a gente estava longe dos nossos filhos – começamos a compor em espanhol, porque é uma língua afetiva de Bruno. Ele quis assim, me chamou para compor. Acho que é a segunda vez que eu componho em espanhol.
MaisPB – A canção “Unga Dorme Nesse Frio”, lembra uma canção de ninar?
Moreno Veloso – Ela é uma canção de ninar que eu fiz na hora que botava José meu filho para dormir, sempre cantando músicas. Um dia, estava muito frio, ele me perguntou – “como se faz para inventar música? Eu disse: a gente inventa e comecei a inventar uma – falando para ele dormir naquele frio, que as estrelas, a lua, o sol, vinham perguntar por ele. José ficou admirado e disse – “é assim que se faz uma música?” Eu gostei do resultado, da sensação de estar fazendo uma homenagem aos meus filhos, na frente deles, pra eles, com esse apelido meio estranho Unga, meio islandez.
MaisPB – Essa canção já tinha sido gravada com o selo de Chicago Corbett vs. Dempsey, né?
Moreno Veloso – Sim. Esse selo de Chicago, encomendou esse disco bem no meio da pandemia, todo mundo em casa. Eles encomendaram esse disco para vários artistas que pudessem gravar em casa. Eu gravei com violão e laptop, com dois microfones, um disco caseiro. A proposta deles era lançar só em CD e não botar nas plataformas digitais, era para ser uma espécie de obra de arte, porque eles trabalham numa galeria de arte – o CD pra eles é uma obra de arte. Esse disco pode se ouvir no bandcamp, que a pessoa pode comprar a música ou pode ouvir sem comprar.
MaisPB – Chegamos à Donzela, ela se casou mesmo, Moreno?
Moreno Veloso – Essa música surgiu na minha mente, eu comecei tocar como se aparecesse do nada na minha frente. Eu estava com meu irmão Tom, ele achou bonito, disse que não conhecia esse samba antigo. Eu falei – não é um samba antigo, ela acabou de aparecer na minha mente.
MaisPB – A canção “Vista da Janela”, que é outra parceria sua com Quito Ribeiro, é uma boa sacada?
Moreno Veloso – Ela é do ano 2001. Eu mandei para o Quito e ele tinha esquecido. Um dia mandou uma letra que falava de um time de futebol e eu não gostei. Depois, ele escreveu outra letra e eu gostei e gravamos.
MaisPB – A canção “Ninguém Viu” você cantou no show Ofertório, e é tema de um filme argentino?
Moreno Veloso –É sim, estava no show Ofertório. Eu compus de encomenda pelos diretores e produtores argentinos a mim e ao Quito, é a música de abertura do filme “Una a Novia de Shanghai” Quito fez a letra e eu a música.
MaisPb – Sambinha bom “É Hoje”, seu e de Luís Filipe de Lima…
Moreno Veloso – É um samba bom, meu e de Felipe, ele é carioca, e traz o samba do Rio e eu coloquei uma letra do samba de Santo Amaro, da festa do Recôncavo, das comidas baianas e fiz essa mistura do sotaque do samba carioca, com a letra falando da festa baiana.
MaisPB – Fecha o disco com “Deixa Estar” de Marina e o irmão, Antônio Cícero?
Moreno Veloso – Desde que eu ouvi esse disco, nos anos 90, que faz parte de meu imaginário, eu ouço muitas vezes. Essa música que Marina Lima lançou em seu lindo álbum “Pierrot do Brasil” de 1998, eu fiquei tocando muito no violão, tocava nas passagens do som, já estava ganhando intimidade com a música. Eu amo a Marina e o Cícero, as composições deles. Eu já lancei uma versão Fugaz
MaisPB – Marina já ouviu você cantando “Deixa Estar” ?
Moreno Veloso – Sim, ela me escreveu. Ela é minha prima, minha mãe é prima dela. A nossa família em comum veio da Holanda e Espanha. Meu avô veio morar no do Acre, de uma família holandesa. Veio trabalhar na exploração borracha, e minha avó era prima dele. Marina gostou muito. Ela disse que achou uma boa escolha, eu ter gravado essa canção tão linda.
MaisPB – Marina inclusive gravou a canção de seu pai, “Ela e Eu”, acho que só o refrão…
Moreno Veloso – Isso. Ela gravou só um pedaço da canção – o disco começa com ela cantando sozinha. Meu pai gostou muito. Aquela música está no disco da Marina, eu lembro, era pequeno quando Marina e Cícero chegaram lá em casa, na hora que ele estava compondo e viram, o momento da composição. Ela levou um trecho da canção e gravou.
MaisPB – Você já viu o documentário “Dorival Caymmi – Um Homem de Afetos”?
Moreno Veloso – Não vi. Quero muito ver.
MaisPB – Você, Zeca e Tom vão ter alguma participação no show Caetano e Bethânia?
Moreno Veloso – Não, que eu saiba não. Não fomos convidados em nenhuma participação desse show. Eu quero muito assistir.
Sobre Moreno Veloso
Moreno Veloso é um cantor, compositor e produtor musical nascido em Salvador, Bahia. Lançou seu primeiro disco “Máquina de Escrever Música”, no ano 2000, junto com seus amigos Domenico Lancellotti e Alexandre Kassin com quem formou o projeto +2. Esse mesmo trio, em 2008, assinou a trilha sonora do espetáculo “Imã” do Grupo Corpo. Em 2011, Moreno lançou o disco ao vivo “Solo in Tokyo” e, em 2014, seu segundo disco de estúdio “Coisa Boa”. Participou com seu pai Caetano e seus irmão Zeca e Tom do show “Ofertório”, que foi lançado em disco em 2018. Lançou o álbum de voz e violão “Every Single Night” pelo selo Corbett vs. Dempsey de Chicago, em 2021.
ACIDENTE - 03/04/2025