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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: [email protected]

Arrumando os livros

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publicado em 26/03/2025 ás 07h00
atualizado em 25/03/2025 ás 20h03

 

Estou em fase de arrumação da minha biblioteca. Melhor dizendo: sempre estou a arrumar a minha biblioteca. Esse ato, que me exige cuidado, carinho, paciência, foi se transformando numa venturosa rotina ao longo dos dias. Venturosa, cansativa, surpreendente.

Estar entre os livros não deixa de ser uma maneira muito especial de habitar o mundo, de conviver com geografias diferentes, de compartilhar ideias múltiplas e emoções universais. Enfim, de estar aqui e ali ao mesmo tempo, em tempos diversos e em outras culturas e civilizações.

O ato de arrumar os livros foi me ensinando muitas formas de ordená-los nas prateleiras e nas estantes, conforme os critérios racionais e sensíveis que os possam aproximar, pela semelhança ou pela diferença, dentro do habitat bibliográfico determinante.

Sei que o ato de arrumar os livros consiste num modo muito particular de lê-los. Diria mesmo que existe uma leitura que não é a leitura que imaginamos e que admitimos como natural. Ler as palavras, os períodos, os parágrafos, os capítulos, os volumes de cabo a rabo, naquela perspectiva do estudo, da análise e da interpretação.

Penso, talvez poeticamente, que o simples e terno gesto de afagar um livro, limpar a poeira do dorso, folhear suas páginas, reter a atenção sobre uma frase qualquer e deixar-se iluminar pelo conteúdo que sugere, é também um tipo de leitura. Uma leitura que se converte, a princípio, num silencioso reconhecimento ou numa convocação despretensiosa para o que chamo de um gesto de amor.

Ora são os autores e autoras que me mobilizam. Ora são os assuntos, a temática, os motivos que me desencadeiam o senso de organização e estabelecem a pauta das escolhas, das preferências, das relevâncias nesse mágico país em que se transmutou a minha biblioteca.

Não sigo as normas da biblioteconomia. Sempre fui meio desconfiado dos paradigmas científicos. Detesto as rígidas nomenclaturas e sei da precariedade de qualquer classificação. Aposto, sim, no princípio do prazer, na volúpia dos momentos íntimos, na gramática intuitiva que me conduzem ao universo dos livros.

Se devo me referir a nomes (e seriam tantos!!), destacaria, por exemplo, os poetas, seja os da “última flor do Lácio”, seja os de outros idiomas, mortos e vivos. Alguns ocupam espaços especiais com seus textos e os textos acercam de sua vida e obra. Um Dante, um Baudelaire, um Pessoa, um Borges, um Augusto, um Bandeira, um Drummond, um Jorge de Lima me parecem emblemáticos dentro de minha tradição poética. Isto é, dentro de meu gosto, zelo e paixão.

Se me prendo aos assuntos (que assunto não me interessa?), termino por me desmembrar em diversas paisagens. A paisagem da poesia, já que aludi a poetas, me atrai diuturnamente. Gosto dos livros teóricos acerca da fenomenologia do verso. Sem contar as tantas nacionalidades, junto-os, os livros, numa estante só, dando-me a convicção de que ali posso me abastecer com os instrumentos necessários para dialogar com o mistério da criação poética.

Ninguém me convence de que não seja essa sistematização uma maneira de ler. Uma leitura física, táctil, muscular, respiratória, responsável, ao fim, por um halo de intimidade que se instala entre mim e os livros, vitalizando, assim, o silêncio e a solidão que se fundem na minha biblioteca.

Arrumar os livros me proporciona outros encontros, formaliza outras vizinhanças, sugere pactos e cumplicidades entre autores e obras, talvez inimagináveis, não fosse o ritual sagrado da arrumação.

Curioso: na vida real Tolstói e Dostoiévski nunca se encontraram. Leram-se, quem sabe, de viés e aos pedaços. Pois bem: na minha biblioteca estão juntos um do outro. São vizinhos irmanados na mesma senha de perplexidade e grandeza. Faço-os falar sempre um ao outro. Eu mesmo não consigo compreender um sem o outro. Lendo este estou lendo aquele.  Não rastreio Crime e castigo sem pensar na Morte de Ivan Ilitch. Há algo que aproxima a Sibéria de Yasnaya Polyana.

Essas junções, essas idiossincrasias, esses esquemas subjetivos, entre outras estratégias, comandam a cerimônia da arrumação dos livros. Como que formam outros modelos e me dão outros suportes para desenvolver e explorar o ato de ler. Enfim, o gosto de arrumar.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB