João Pessoa, 02 de abril de 2025 | --ºC / --ºC Dólar - Euro
O maior poeta!
Para meu amigo Kubi, é Drummond, sem tirar nem pôr.
Fico matutando nessa coisa de maior poeta. O maior poeta seria o poeta maior? Quais os instrumentos eficazes para mensurar e decidir a grandeza de um poeta? O tamanho do corpo? A medida da alma? A proeza semântica de seu vocabulário singular? A posição que lhe deram os críticos e historiadores na cena dos percursos líricos, épicos e dramáticos? A obra, a vida, a fama, a glória, o anonimato?
Quem pode me responder?
Bandeira se dizia um poeta menor. O que é um poeta menor? Integraria este poeta um desses grupos minoritários que pululam por aí, batalhando pela conquista de novos direitos civis e sociais? Seria aquele que escreve pouco, e, quando escreve, se deixa prender pelas grades da gramática minimalista? Um poeta que simplesmente suspira o peso das miudezas cotidianas e teme a vastidão narrativa dos enredos odisseicos? Esses que fazem do haicai o mais devastado dos modismos?
Se Bandeira se diz menor, e se meu amigo Kubi acha Drummond maior, que tamanho teria, por exemplo, Cecília Meireles, Castro Alves, Raimundo Correia, Murilo Mendes, Augusto dos Anjos, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Alberto da Cunha Melo, José Antônio Assunção?
Haverá, de fato, uma alíquota justa, uma porcentagem equilibrada, uma figuração geométrica que alcancem a espessura de um poeta? Seu peso, seu comprimento, sua velocidade, sua imaginação?
Insisto. Se existe, não sei.
Desconheço as ferramentas de cálculo que possam precisar, com exatidão matemática, o tamanho dos poetas. Digo isto porque a relação com os poetas, quando nos é dada a graça de com eles estabelecermos relações, através da aventura mágica da leitura, é sempre pautada por fatores de ordem subjetiva, por ambivalências emocionais, por urgências íntimas e circunstâncias peculiares, pela incontornável precariedade que comanda o contato com os fenômenos escorregadios e inexplicáveis. Sinto nessa relação algo de difuso, impronunciável, místico, santo, abissal.
Poderia dizer o que já disse em ocasião remota, voltando-me para a figura do escritor. O escritor maior é aquele que amo. Pois bem, vale a fórmula. O maior poeta é aquele que amo.
Então Drummond é o maior poeta. Augusto, Jorge, Pessoa, Francisco, Nauro, Vanildo, Adélia, Camilo, Mário, Chagas, Ângelo, Mauro, Carlos, Marize, cada um, na sua singularidade, com seu repertório ideativo, imagético, musical, é o maior poeta. Cada um, com seus relâmpagos, tempestades, calmarias.
De outra parte, essa medida, se é que se pode chamar de medida experiência tão sutil e tão complexa, não se formula assim de repente, num lance súbito, resolvida tal qual uma equação cujas incógnitas têm a transparência do cristal.
Não. Penso que as coisas funcionam sob um regime menos perfeito. Essa medida, isto é, a grandeza de um poeta, aquilo que nos leva a considerá-lo um poeta maior, vai se consumando aos poucos, na proporção do conta-gotas, ao ritmo da convivência e ao sabor misterioso da intimidade.
Uns, não raro, nos parecem pequenos, ainda tateando os primeiros aceiros da sensibilidade, como se quase nada de grandioso tivessem a nos ofertar. Aos poucos, no entanto, depois de uma palavra aqui, de outra ali, mais à frente um verso daqueles, enfim, a deliciosa descoberta do tesouro do poema, somos que tomados pela sua grandeza. Única, diferente, autônoma, definitiva.
Outros já denunciam sua grandeza desde a leitura do primeiro verso. São os grandes sempre grandes. Os maiores. Só que isto não os insere numa tabela fixa, num esquema de setas aplicadas numa única e imutável direção. Afinal de contas, a grandeza de um poeta também está submetida à maleabilidade dos vetores quânticos. Portanto, é infensa a qualquer limite racional.
Inferência conclusiva: o maior poeta é sempre uma iluisão!
* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB
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