João Pessoa, 04 de abril de 2025 | --ºC / --ºC Dólar - Euro
Cheguei em Sousa em 1979, agosto, acho. No Uiraúna não havia ensino além do ginasial. Voltei para o sítio, inscrevi-me nas frentes emergenciais de trabalho e por lá, com a beradeira juventude dos meus18 anos, eu era feito de sonhos e afoiteza.
Ao pé da Serra do Desterro, as músicas que eu ouvia eram o coaxar dos sapos, o rock pesado dos passarinhos, os hinos das novenas de maio, a caatinga rangendo as suas dores e alegrias, os cânticos dos caboclos, o estribilho dos guinés, o Riacho Pé de Serra tomando água ou chorando por falta dela.
Algumas vezes, no velho rádio lá de casa, caiam nos meus ouvidos outras melodias, tocadas no programa “Terreiro da Fazenda”, da rádio difusora de Cajazeiras: Trio nordestino, Valdick Soriano, Luiz Gonzaga, Teixeirinha, e, já mais tarde, na cidade de Uiraúna, nas radiolas dos bares da cidade, Roberto Carlos, Secos e Molhados, Wanderléia, Ronnie Von, José Augusto…
Em Sousa, tudo me revolucionou. Anos 1980, 1981, segundo grau no Polivalente II, uma galera gente boa: os Severianos, Júlio Cesar, Messias, Sônia, Marta, Formiga, os Pordeus, Marcos Figueiredo, os Estrelas, Isnaldo, Josa, Toinho, Plínio, os Morais…
Tínhamos nossas diferenças. Quase todos eles moravam na cidade há tempo. Eu ainda guardava a Serra do Desterro roncando nos meus ouvidos a sua solidão.
Em 1983, curso Direito. Aí o bicho pegou. Eu já vinha da Juventude Franciscana, seus valores, as músicas de padre Zezinho, o anseio por um mundo melhor.
O PT estava em construção. Muito justo que os trabalhadores mandassem no país. Envolvi-me. Logo, tentei substituir a matutice por uma urbanidade deslocada. O Diretório Acadêmico promovia um filme, uma sessão de músicas, tipo esssa do genial Gilberto Gil (foto)
“(…)
Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão
(…)
Oi girando na mente ô, José
Do José brincalhão ô, José
Juliana girando oi, girando
Oi, na roda gigante oi, girando
(…)
A letra, a música, o bandejão no restaurante universitário, as greves, um oitavo do salário mínimo na farmácia em que trabalhava… Absorto no meio do fuzuê completamente embasbacado. E foi assim que, daí em diante, girando, girando, eu nem sei como cheguei aqui.
@professorchicleite
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EM AGENDA NA PB - 04/04/2025