João Pessoa, 04 de abril de 2025 | --ºC / --ºC Dólar - Euro
Ela disfarça de muitas formas,
usa roupas de braba,
de timidez, de ocupação. E não brilha.
A cowardice é sempre atarefada,
passa horas remendando seus panos,
encurta as mangas quando necessário,
e aumenta a barra se o momento pedir. E não brilha.
Fica fascinada diante do espelho, se olha
contemplando seu rosto sem gosto
sabendo que a sua imagem é outra
Um dia se veste de dignidade, de boazinha
no outro, de indignação.
Às vezes, se transforma noutra mulher,
ou em alguém sem pureza e sem mácula.
Ela conhece os textos sagrados
e precisa de um novo traje para recitá-los. E quando declama, não brilha.
Ah, a cowardice!
Ela acredita que engana a todos,
com suas camadas de maquiagem e não lacra, importadas de terras distantes.
A educação dos ingleses,
a pontualidade dos suíços,
ou quem sabe as ideias de Kant?
Sim, a cowardice também quer lê os filósofos.
Palavras doces, duras e critérios rigorosos;
ela é tão meticulosa que agenda o momento para se irritar,
se vingar ou provocar. E depois morrer.
A cada dia um novo plano se desenha. Mas ela só quer brilhar
É um falso brilhante
A cowardice nunca deixaria de ser covarde;
é sua hora e se alimenta dos golpes sutis.
Com precisão e requinte estuda, planeja e desliza pelo mundo como uma sombra.
Mas há quem veja além do disfarce;
quem percebe as fissuras na máscara, da cara, da mentira
E ao invés de temer sua presença, ela rir de si mesma
pois sabe que a verdadeira coragem não está em seu alcance
O mundo é isso – um palco giratório para muitos personagens,
mas os que têm coragem para serem realmente e são,
brilham com uma luz que nenhuma maquiagem pode apagar.
Ah, a cowardice! Ela pode até tentar enganar;
mas no fundo dá sempre uma voz que clama por verdade, piedade, Senhor, piedade.
PS. A ilustração é o último show de Elis Regina, “Falso Brilhante”. Elis não era covarde.
(Eu sou Antônia)
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EM AGENDA NA PB - 04/04/2025