João Pessoa, 26 de fevereiro de 2025 | --ºC / --ºC Dólar - Euro
Sublinho, comovido, este trecho de O crime de Sylvestre Bonnard, romance de Anatole France: “ – Por que – disse de mim para mim – por que descobri que o livro ambicionado está neste mundo, se nunca o possuirei nem sequer o verei jamais?”.
O livro ambicionado!
Quanto não os tenho na dor de meu desejo, nas gotas de ansiedade que me tomam na sagrada obsessão do colecionador. Aquele que está ausente, aquele que é inalcançável, só intensificam o sofrimento, impossível de ser aplacado.
O personagem de Anatole afirma que o procuraria, aquele livro ambicionado, “no coração ardente da África ou nas neves do Polo, se soubesse que chegara tão longe”. Decerto, eu não agiria diferente, apesar de meus parcos recursos para viagem tão longa. Sou um amador dos livros e, como o rei Alexandre, gostaria de possuir muitos, milhares, todos e de todos os lugares, e de todas as civilizações.
Diz Irene Vallejo, em O infinito em um junco: a invenção dos livros no mundo antigo, que “Reunir todos os livros que existem é outra forma – simbólica, mental, pacífica – de possuir o mundo”. E, mais à frente, enriquece seu pensamento com esta proposição luminosa e irrefutável: “Num mundo caótico, adquirir livros é um ato de equilíbrio à beira do abismo”.
Não duvido disso! Sei isso como poucos, pois vivo dos livros, com os livros, para os livros, numa permanente e íntima cerimônia que oscila entre o erótico e o sagrado, o ordinário e o extático, a calmaria sedentária e o nômade frenesi.
Os livros me chegam todos os dias. Todos os dias vasculho livrarias reais e estantes virtuais à caça desses objetos amados, como se fizesse, agora, sim, a viagem dos meus sonhos, a viagem sem fim, a viagem que representa o selo de minha própria vida. A única viagem.
Possuo muitos livros, porém, falta-me muito mais. Falta-me, principalmente, aqueles que não possuo e, provavelmente, nunca vou possuir. Por isto me associo à angústia de Sylvestre Bonnard e o compreendo como a um irmão de zelo e loucura.
Uma primeira edição do Eu, de Augusto dos Anjos, aquela de 1912, financiada pelo seu irmão Odilon e que impactou a crítica carioca, é uma das muitas ambições que cultivo. Cheguei a manusear um exemplar, pertencente a uma amiga, aparentada do poeta, mas que dele não se desfazia por nada nesse mundo.
Fiz foto, acariciei, passei suas páginas como se polisse pérolas, botei preço, tudo em vão, a não ser a graça de ter tocado aquelas folhas amarelas de uma simples brochura nem tão bem editada, mas que carregava, nas espáduas de seus estranhos versos, as primeiras luzes da poesia moderna no país. Aquele pronome pessoal em vermelho, contrastando com o beje, no design da capa, já constituía a antecipação de um apelo semântico dos mais ricos e mais densos em meio à mediocridade da cena literária de então. Aquilo que Afrânio Peixoto chamou de “Literatura, sorriso da sociedade”.
Um outro fetiche que tenho é a primeira edição dos Sertões, de Euclides da Cunha. Aquela que saiu com inúmeras gralhas, obrigando o escritor, no seu obsessivo perfeccionismo, a corrigir, um por um, as centenas de erros tipográficos que o infestavam. Publicado em fins de 1902, Os sertões, este completo ensaio de civilização, em sendo obra de natureza científica, o é também de natureza estética, materializando um dos raros e prodigiosos hibridismos de gênero e linguagem na literatura brasileira.
O que não faria para enfileirar na minha estante machadiana, denominada de Dom Casmurro, a primeira edição de Crisálidas, prefaciada por Caetano Filgueiras, recolhida quase totalmente pelo Bruxo do Cosme Velho, devido a um cacófato desconfortável que escapa no prefácio e, por isto mesmo, retirado, o prefácio, da segunda edição, em suas Poesias completas.
José Mindlin conta o fato em Uma vida entre livros: reencontros com o tempo, e assegura, com a ciência do autêntico bibliófilo, que “Às vezes um erro na edição pode fazer de um livro comum uma grande raridade”. Assim como uma dedicatória, uma epígrafe, a capa, as ilustrações, até mesmo o tipo de letra e o tipo de papel.
Iria mais longe ainda se listasse outros livros que ainda não integram o espaço de minha biblioteca e, certamente, nunca integrarão. Mas, penso nisto a cada dia. Vivo, a cada dia, a cada hora, a cada minuto, a febre incurável dessa ausência, desse vazio.
Se não os possuo, se não os possuirei, se não os verei jamais, como assinala Sylvestre Bonnard, conservo-os, no entanto, na clareira do sonho. De certa maneira os tenho, pois, de certa maneira, eles convivem comigo como aquela coisa amada e impossível.
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TURISMO - 25/02/2025